Gostaríamos de informá-lo...

Estou lendo um livro chamado “gostaríamos de informa-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”. Não preciso descrever a reação das pessoas, a sua provavelmente, ao terminar de ler essa frase.
Faço minhas leituras no ônibus. E fico atento à reação de quem, por curiosidade, gosta de bisbilhotar a leitura alheia. Não me incomodo, me divirto. A cara de estranhamento ou de condenação me ajuda a compreender na prática as idéias do jornalista Philip Gourevitch, autor do livro.
“Gostaríamos de informa-lo de que amanhã seremos mortos com nossas familias” é um relato jornalístico. Esse nome foi retirado de uma carta, em que um ruandês escreve para um pastor, também ruandês, na tentativa de salvar a própria vida e a de outras pessoas que estavam refugiadas em um hospital durante o genocídio de 1994, em Ruanda. De fato, todos morreram no dia seguinte e o pastor ajudou a realizar o serviço. Nos outros amanhãs que se seguiram a esse – foram 100 dias de genocídio – foram assassinadas, aproximadamente, 1 milhão de pessoas.
Voltemos ao ano 2006, no meu ônibus, trajeto Fundão-Engenho do Mato ( esse ônibus único não existe, na verdade ele representa aqui uma variação entre duas até três conduções). Gosto de ver a reação das pessoas porque compartilho da curiosidade de Philip: “ este é um livro sobre como as pessoas imaginam a si próprias e umas às outras – um livro sobre como imaginamos o nosso mundo.”
Como imagino o mundo? Como meu vizinho me imagina e se imagina? É bom saber dessas coisas antes que um ou outro toque a campainha com um facão na mão...
Em Ruanda, isso aconteceu. O outro era o vizinho. No conflito étnico desse país, entre Tutsis e Hutus, os dois dividiam os mesmos espaços, moravam na mesma rua e, em determinado momento, um passou a matar o outro. Não porque fosse natural, mas pelas construções sociais... as formas imaginadas do mundo.
E no Brasil? O outro social não vive na casa ao lado... mas aglomerados em favelas, povoados, acampamentos, presídios e manicômios...( não que o vizinho seja um igual, longe disso - após as quatro paredes reina a ignorância humana.) Como imaginamos essas pessoas? Como elas nos imaginam? E qual é o nosso mundo?

2 Comments:
Felipeeee...esse livro tem rendido bons pensamentos não?! Depois que vi o filme Hotel Rwanda quase não conseguia raciocinar, muitos questionamentos, muita tristeza, as lágrimas ofuscaram a vista e inebriaram a fala...silêncio. Hoje no ônibus mais um acontecimento marcante me remeteu ao livro... a humanidade. O quanto vale uma vida? Pensei no JN do outro dia, na mulher assassinada por R$ 200,00 o exato valor que ganho na Folha, poderia matar alguém se quisesse :´(
Me questiono: quanto vale a MINHA vida, R$50,00? R$10,00? Nada!
E se me matam em pensamento???? Não é a idéia que consiste no crime?...Ah...meras divagações...desabafo! :*
Lu... seja bem vinda!
Sou utópico. Vivo sonhando. Por onde vou imagino um outro mundo possível. Mas hoje passei pelo lugar em que o seu ônibus estava quando vc viu aquilo... lembrei da história e por um instante tive um pesadelo.
Alguns chamariam isso de contato com a realidade. Tudo bem, sim, faz parte...por mais bizarro que seja ver cabeças..., pessoas q jogam fogo em outras por causa de um depósito bancário e matam por 200 reais. Mas também faz pare da realidade atitudes como a do Paul Rusessabagina, de Ruanda. Ele provou o valor da vida no inferno. E é interessante porque sempre negociou a vida das pessoas com os outros – mas o humano para ele não tinha preço – era TUDO o que não podia perder.
Bom... talvez seja o pensamento o ponto de partida tanto para preservar, como para tirar uma vida. Espero q o outro mundo q fico imaginando seja útil.
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