Sobre o ato de pensagrafar.
Ele odiava inspirações que vinham no meio da rua, como dor de barriga. “Falta papel!” Perder o fio narrativo de um conto, ainda sem texto, para o barulho irritante das buzinas no Rio de Janeiro, lhe parecia insuportável.
O ambiente certo estava a poucos minutos. Esperança é tudo nessas horas. Alguns metros a mais naquela avenida agitada de Botafogo e pronto, estaria garantida a vida do personagem prematuro.
No seu caminho, um grupo de mulheres espeva um taxi, deixando o mínimo de espaço para quem estava a pé. Desviou e logo parou. Era uma caminhonete que não cabia na calçada.
Acelerar o passo o faz perceber contrações na bexiga. Mente e corpo reclamam cada qual as necessidades do seu quadrado.
Na portaria do prédio, eleva a mão para chamar o elevador com pressa de um pseudoescritor sem suporte ou, se preferir, um humano sem privada. “Elevador em manutenção”.
Procura assumir o tempo do personagem. Age como ator, entrega-se como suporte temporário e emergencial. O vizinho, ali em pé, é plateia em cena.
Olha novamente para a porta do elevador e leva alguns segundos até se dar conta de que já podia ter entrado. Segura a porta com firmeza, percebe cada movimento, observa-se como se fosse outro. Ergue o braço, aperta o oitavo andar.... Escuta o barulho de chaves e busca pelas suas.
O elevador pára. Conta alguns segundos antes da porta se abrir totalmente. Silêncio. Rompe com um “boa noite” seco e rápido.
Caminha, abre a porta. Tranca. Abre outra porta. A tampa da privada. Descarga, água. Senta-se e agora escreve.

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