Pensagrafia

Tuesday, October 30, 2007

Pensagrafia em construção




Ainda não está pronta. Falta enchimento e verniz final. Mas reservo logo o espaço da próxima pensagrafia. Aqui segue só o começo....

A liberdade é atributo da Vida; enquanto, quem vive está condenado a realizá-lo. Talvez, eles sejam escravos, e estejam aí unicamente para mover engrenagens, satisfazer quem de fato tem vontade. Ela, a Vida. Circula por cada um, espalha formas únicas, identifica, faz parir e morrer.

Só pode ser injusta, do ponto de vista de quem a experimenta. Ela tolera, sem culpa ou piedade, ricos, pobres, dá muito ou deixa quase nada.

Mas há desigualdade maior que a monetária: a de experiências. Enquanto alguns desfrutam de um constante final feliz, sobre um palco burguês, outros contracenam em trágicas arenas gregas. Mães que perdem os filhos, e filhos que ficam órfãos; corpos amputados, e mentes desgarradas dos corpos.

O que quer a Vida ao ser tantas? Qual o sentido de por lado a lado tanta diferença?

(continua e/ou muda)

Sobre o ato de pensagrafar.

Ele odiava inspirações que vinham no meio da rua, como dor de barriga. “Falta papel!” Perder o fio narrativo de um conto, ainda sem texto, para o barulho irritante das buzinas no Rio de Janeiro, lhe parecia insuportável.

O ambiente certo estava a poucos minutos. Esperança é tudo nessas horas. Alguns metros a mais naquela avenida agitada de Botafogo e pronto, estaria garantida a vida do personagem prematuro.

No seu caminho, um grupo de mulheres espeva um taxi, deixando o mínimo de espaço para quem estava a pé. Desviou e logo parou. Era uma caminhonete que não cabia na calçada.

Acelerar o passo o faz perceber contrações na bexiga. Mente e corpo reclamam cada qual as necessidades do seu quadrado.

Na portaria do prédio, eleva a mão para chamar o elevador com pressa de um pseudoescritor sem suporte ou, se preferir, um humano sem privada. “Elevador em manutenção”.

Procura assumir o tempo do personagem. Age como ator, entrega-se como suporte temporário e emergencial. O vizinho, ali em pé, é plateia em cena.

Olha novamente para a porta do elevador e leva alguns segundos até se dar conta de que já podia ter entrado. Segura a porta com firmeza, percebe cada movimento, observa-se como se fosse outro. Ergue o braço, aperta o oitavo andar.... Escuta o barulho de chaves e busca pelas suas.

O elevador pára. Conta alguns segundos antes da porta se abrir totalmente. Silêncio. Rompe com um “boa noite” seco e rápido.
Caminha, abre a porta. Tranca. Abre outra porta. A tampa da privada. Descarga, água. Senta-se e agora escreve.

Wednesday, October 03, 2007

Cadê o mundo que passava na minha janela?




Passei um bom tempo sem visitar esse blog. Mas depois de saber que ele vinha sendo lido, resolvi voltar, reler, e ver se alguma coisa se salvava. Posso estar enganado, iludido... mas não me decepcionei com o arquivo de pensagrafias. O que não achei aqui é que me deixou um pouco angustiado.

Será que todo esse tempo em que passei sem escrever não tive um pensamento digno de ser fotografado? Nada valeu a pena de ser digitalizado, e devidamente preservado nesse álbum?

Faz tempo também que não faço mais o trajeto Praia Vermelha-Fundão-Engenho do Mato, incluídas aí as inúmeras baldeações possíveis. Mudei. Mudaram os meus caminhos, ganhei e perdi coisas. Apareceu um buraco na minha vida com um diâmetro que cruza duas cidades quase ponta a ponta. Cadê o tempo-perdido-nas-viagens-de-ônibus? O frenesi das idéias e a necessidade de preencher a cabeça com fotografias de nadas? Sofri com o êxodo do abstrato. Parece chique, mas não é não. É triste isso.

Agora, tudo o que faço é perto, concreto. Estudo, Trabalho, Estudo. O dia é cheio. E a condução entre uma tarefa e outra não leva mais do que vinte minutos. Viva a eficiência do traçado urbano e da logística de trânsito!

No início eu estranhava tudo. Faltava terra passando `a vista. Ora, em 20 minutos a quantidade de quadros pela janela do ônibus é insuficiente para alimentar um olho acostumado a mais de 2h de imagens em movimento. Tive fome. Senti que fiquei fora do Muuundo, ou que ele não passava mais pela minha janela.

Aos poucos tudo virou correria. Logo após a experiência da falta de mundo, do pouco espaço percorrido durante as viagens, tive a sensação de que era o tempo que me havia escapado. Como eu estava perto de tudo, queria fazer tudo. E pior, cadê o relaxamento de eternidade que se faz em banco de ônibus? Antes, eu pagava, passava a roleta e quando tinha a sorte de viajar sentado esquecia do meu ponto final. Tinha quase uma eternidade até lah. E escrevia reticências de pensagrafias. Hoje, a vida é curta, a espera é ansiosa, o ponto eh logo ali...se relaxar eu danço.

É possível que, no fim, tempo e espaço me sejam indiferentes. Até o momento, a brevidade deles ainda me causa mistura de alegria e tristeza. Não sei nada sobre a dimensão em que estou no limiar de cruzar. Quero descobrir. Talvez por isso venha aqui, levantar a poeira deste álbum. Objetiva em espera por instantes decisivos. Que voltem as pensagrafias!

Wednesday, November 01, 2006

Pensagrafando no ônibus – viaaagem...



Ei... de repente o mundo devia ser outro!
Não era essa a faculdade
Não eram essas as pessoas
As aulas, as almas
As notícias também eram pra ser...
o u t r a s

Quem levou o mundo que estava aqui?
Alguém tirou e botou outro.
Sr Delegado, roubaram meu mundo!
Não tinha seguro.
Testemunha?!

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Fotos, fotos muitas fotos.
Registra o pensamento
Guarda esse instante decisivo
Ajusta a velocidade da máquina
Porque são rápidos
Pensografou esse???

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Pensografia panorâmica...alguém sabe como fazer?

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Véspera de feriado prolongado. Normalmente é a ponte que pára. Mas hoje foi a Cachoeira. (trânsito)

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Pensografia conforta.
Sempre me angustiei com a idéia de perder pensamentos. Agora tenho um álbum deles.
Aquelas questões complicadas de temporalidade e finitude assustavam.
A memória está bem curta.
É triste fazer enterro de pensamento, quando depois vem a saudade e nem se sabe do que.

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Ainda na Cachoeira... começa a subir (trânsito)

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Já imaginou se inventassem nanorealizadores de idéias. Maquininhas invisíveis ao olho humano que trabalhassem dia e noite, construindo utopias na Terra. Todo sonho de transformação social ou pessoal teria garantia de concretização.Seguro contra perdas e danos. “Garanta já a passagem entre as dimensões!”. Do espiritual para o material. Da Teoria à prática. Tenha um robô de Limiar.

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Transito parado no trevo.

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O pensamento dessa viagem de ônibus – ou viaaaaagem, simplesmente – acaba daqui a pouco. Dura duas ruas.


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Cruzamento – Linha de ônibus e do caderno.
Sinal vermelho.

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São dois movimentos diferentes. O do ônibus e a do pensamento. Quando um pára o outro segue por inércia. Alguém salta e uma palavra desce.

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Última Rua

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Cheiro de casa com perfume de mato. Já passou o Bazar do Querido e As Delícias da Gorda. Ao lado, a floresta.

Sinal Verde

Ponto Final.

Sunday, October 29, 2006

Gostaríamos de informá-lo...


Estou lendo um livro chamado “gostaríamos de informa-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”. Não preciso descrever a reação das pessoas, a sua provavelmente, ao terminar de ler essa frase.

Faço minhas leituras no ônibus. E fico atento à reação de quem, por curiosidade, gosta de bisbilhotar a leitura alheia. Não me incomodo, me divirto. A cara de estranhamento ou de condenação me ajuda a compreender na prática as idéias do jornalista Philip Gourevitch, autor do livro.

“Gostaríamos de informa-lo de que amanhã seremos mortos com nossas familias” é um relato jornalístico. Esse nome foi retirado de uma carta, em que um ruandês escreve para um pastor, também ruandês, na tentativa de salvar a própria vida e a de outras pessoas que estavam refugiadas em um hospital durante o genocídio de 1994, em Ruanda. De fato, todos morreram no dia seguinte e o pastor ajudou a realizar o serviço. Nos outros amanhãs que se seguiram a esse – foram 100 dias de genocídio – foram assassinadas, aproximadamente, 1 milhão de pessoas.
Voltemos ao ano 2006, no meu ônibus, trajeto Fundão-Engenho do Mato ( esse ônibus único não existe, na verdade ele representa aqui uma variação entre duas até três conduções). Gosto de ver a reação das pessoas porque compartilho da curiosidade de Philip: “ este é um livro sobre como as pessoas imaginam a si próprias e umas às outras – um livro sobre como imaginamos o nosso mundo.”

Como imagino o mundo? Como meu vizinho me imagina e se imagina? É bom saber dessas coisas antes que um ou outro toque a campainha com um facão na mão...

Em Ruanda, isso aconteceu. O outro era o vizinho. No conflito étnico desse país, entre Tutsis e Hutus, os dois dividiam os mesmos espaços, moravam na mesma rua e, em determinado momento, um passou a matar o outro. Não porque fosse natural, mas pelas construções sociais... as formas imaginadas do mundo.

E no Brasil? O outro social não vive na casa ao lado... mas aglomerados em favelas, povoados, acampamentos, presídios e manicômios...( não que o vizinho seja um igual, longe disso - após as quatro paredes reina a ignorância humana.) Como imaginamos essas pessoas? Como elas nos imaginam? E qual é o nosso mundo?

Monday, May 08, 2006

O recomeço

Aqui vou eu mais uma vez nessa aventura. Não é o meu primeiro blog. Não é a primeira vez que sou atraído por esta página em branco brilhante. Este talvez seja diferente. Eu sou diferente. Talvez mais uns poucos anos de vida tenham me dado mais material para diminuir o brilho destas folhas digitais, com a tinta negra da falta de luz dos caracteres.


Para (re)começar é válido lembrar coisas básicas na comunicação: emissor, mensagem, canal e recepção. Este quem escreve não é a pessoa ideal para se descrever, então, é melhor esperar e descobrir o emissor através do véu das mensagens.


Essas, as mensagens, não são definitivas. Escrevo o que der na telha. Pode ser um diário de meio dia; uma filosofia de bar; o desabafo de um bêbado; perda de tempo; humor em criação. A minha mensagem, digamos, por hora, é um experimento em um laboratório. E nisso, nesse lab-palavreado, resumo a explicação do canal-blog.


Agora, sobre o receptor... dou uma risada tímida, respiro, e penso: "será que Deus pára pra ler blogs?". Muitos dirão que ele já os leu todos, antes mesmo de serem escritos. Mas não escrevo para Deus. Escrevo para mim, que só consigo ler na medida em que reescrevo no pensamento o texto digitalizado. ( não sei o que quis dizer com isso - um dia eu entendo)


Quero escrever como um fotógrafo. Queria inventar a máquina da escrita do pensamento, para pesagrafar o cotidiano e guardá-los em álbuns. Queria poder tirar o foco; ver no milésimo de segundo; brincar de trocar os filtros. Será que alguém já pensou em fotografar o pensamento no momento do por do Sol? ...do medo, do beijo, da decepção... e da saudade? Capturar o instante de dentro, sob a luz tênue do humano.